Medo de dentista pode estar com dias contados

Cientistas da USP desenvolvem espécie de fita adesiva que libera anestésico na gengiva e alivia dores das picadas de agulha

Os dentistas devem se chatear, mas é fato que nem todos se sentem confortáveis ao se submeter a cuidados odontológicos; mesmo sendo tão necessários para a manutenção da saúde. Porém, um produto desenvolvido em laboratórios da USP em Ribeirão Preto promete minimizar aquela “aflição da picada de agulha” para anestesia bucal. Trata-se de uma fita adesiva que, enquanto fica grudada na gengiva, vai liberando o anestésico.

Foram anos de estudos, buscando alívio das tensões experimentadas nos consultórios dentários, e enfim a equipe de pesquisadores das Faculdades de Ciências Farmacêuticas (FCFRP) e de Odontologia (FORP), ambas da USP em Ribeirão Preto, chegou a um “filme mucoadesivo anestésico”, uma espécie de fita como um esparadrapo biocompatível e biodegradável. É feito com polímero de baixo custo, a hidroxipropilmetilcelulose (HPMC), um derivado de celulose vegetal bastante utilizada nas áreas farmacêutica, cosmética e de alimentos.

Conta Renê Oliveira do Couto, farmacêutico e integrante do grupo, que conseguiram vencer desafios como a adesão eficiente à gengiva, região da boca com superfície de área pequena e bastante irregular, onde geralmente é administrada a anestesia. Para tanto, os “filmes são produzidos com espessura ideal e dimensão, flexibilidade e resistência mecânica adequadas para a administração na mucosa”.

O pesquisador adianta que faltam ainda mais estudos para confirmar os filmes mucoadesivos como substitutos das injeções de anestesias, principalmente em “procedimentos cirúrgicos mais invasivos e complexos”. Mas, afirma que o produto pode ser efetivo em microcirurgias; extração de dentes de leite em crianças e raspagem e curetagem dental em adultos.

Os testes dos dentistas, coordenados pelos professores Vinicius Pedrazzi e Paulo Linares Calefi da FORP, mostram que os filmes reduzem a sensação dolorosa, tanto superficial quanto profunda. A ação anestésica começa após cinco minutos de adesão à mucosa gengival, “atinge efeito máximo entre 15 e 25 minutos e duram por 50 minutos, que é o tempo médio de um procedimento cirúrgico odontológico”, informa o pesquisador.

A equipe comemora, pois acredita que tenha conseguido, no mínimo, eficiente efeito pré-anestésico, no qual o paciente não sente a punção da agulha (a picada) durante a anestesia. Argumenta Couto que esses resultados trazem avanços na prática clínica odontológica, com aumento da segurança – tanto pacientes quanto dentistas expostos a acidentes com agulha, e com aumento da adesão ao tratamento daqueles que são afugentados dos consultórios por medo das agulhas.

Sem similar, nacional ou internacional

Geralmente, antes da anestesia, o dentista tenta aliviar o desconforto do paciente, massageando o local na gengiva com gel, pomada ou creme anestésico. “A rotina dos consultórios diz que essas fórmulas não são eficazes pela pouca ou nenhuma mucoadesão, o que faz com que os fármacos sejam lavados pela saliva e traz mais desconforto ao paciente pelo sabor desagradável”, explica o pesquisador. Já os filmes que produziram, ao contrário, se mantêm grudados na mucosa por todo o tempo de aplicação sem inconvenientes ao paciente.

Além desses, um outro produto em forma de fita adesiva é distribuído há uma década no mercado internacional. É o Dentipatch, produzido por uma empresa norte-americana. Entretanto, até o momento “não foi provada sua eficácia para anestesia profunda”, informa Couto.

Os estudos continuam, seja para comparar fórmulas, testar sensibilidades, aderências e chegar à total substituição das agulhas. Se a equipe conseguir seus objetivos, os benefícios devem se estender a todo mundo já que a carência por produtos que diminuam a fobia a tratamentos odontológicos não é prerrogativa brasileira.

Couto trabalha nesse projeto com os professores Osvaldo de Freitas, Renata Fonseca Vianna Lopez, Cristiane Masetto de Gaitani, Camila Cubayachi e Hugo Alexandre Favacho, da FCFRP, e Vinícius Pedrazzi e Paulo Linares Calefi, da FORP. Desde 2012, a equipe se dedicada ao desenvolvimento de fórmulas mucoadesivas (filmes, géis e comprimidos) para a liberação de anestésicos locais na cavidade bucal. O objetivo, segundo Couto, é minimizar a dor, ansiedade ou desconforto de pacientes submetidos a procedimentos odontológicos.

Partes dos resultados dessa pesquisa estão publicadas online nas edições de dezembro de 2015 da revista Colloids and Surfaces B: Biointerfaces e de junho do ano passado da revista Biomedical Chromatography.

Mais informações: oliveiradocouto@gmail.com

Por: Rita Stella

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