Para sociólogo, políticas públicas de segurança devem romper ciclo de vingança e investir em prevenção

Coordenador do Núcleo de Estudos de Violência da USP, Sérgio Adorno e o pesquisador Marcelo Batista Nery vão discutir em Ribeirão Preto violência e as políticas públicas de segurança no contexto das cidades, dia 21 de março, às 15 horas.

Várias cidades do País, geralmente centros de médio e grande porte, vivem um aumento da violência. Em Ribeirão Preto, por exemplo, estatísticas recentes divulgadas pela Secretaria de Segurança Pública (SSP) do Estado mostram crescimento de crimes de diversos tipos, como roubos, furtos e estupros. Ao mesmo tempo, há notícias de ações policiais violentas e situações de barbárie dentro das prisões, tornando a recuperação de quem comete praticamente impossível.  Diante desse cenário, fica a pergunta: o que fazer para resolver o problema da violência?

Para o coordenador do Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da Universidade de São Paulo, Sérgio Adorno, é preciso quebrar uma espécie de ciclo de vingança que existe na sociedade. “Há, no imaginário coletivo, a crença de que alguns têm direito de conviver socialmente e outros, por terem cometido crimes, devem ser moralmente excluídos da sociedade e pode-se, inclusive, maltratá-los, humilhá-los e até eliminar a vida deles”, explica.

Sociólogo e docente do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, Adorno estará em Ribeirão Preto no dia 21 de março, junto com o pesquisador do NEV-USP Marcelo Batista Nery, para debater a violência e as políticas públicas de segurança no contexto das cidades em evento promovido pelo Instituto de Estudos Avançados da USP Polo Ribeirão Preto. Desde 1987, ele está à frente do NEV-USP, que desenvolve pesquisas sobre a complexa relação entre a persistência da violência e de violações dos direitos humanos em meio à consolidação democrática brasileira.

Segundo Adorno, esse ciclo de vingança, que agrava a violência em vez de contê-la, é reproduzido também na própria formação da força policial. “A cúpula do sistema policial até é afinada com questões do estado de direito, porém o policial da base continua sendo formado com a ideia de que está em uma guerra, de que o inimigo, no caso o criminoso, deve ser eliminado e essa é a vontade coletiva. Ou seja, há uma legitimação da violência”, diz o coordenador.

Esse pensamento se contrapõe a uma das características mais marcantes do brasileiro, a solidariedade. “A maior parte de quem comete crimes ou está preso provém de famílias de baixa renda, com histórico de desemprego e violência doméstica. Mas a sociedade não é solidária à dor dessas famílias, que não tiveram condições adequadas para criar seus filhos”, diz Adorno.

Romper o ciclo de vingança, para o coordenador, é tarefa de pesquisadores, que devem divulgar os resultados de seus estudos nessa área; educadores, que precisam estar preparados para lidar com isso; e do Estado, que não pode fomentar a violência, e sim contê-la. “Não há uma política de direitos humanos eficaz que não lide com problemas de lei e ordem. Mas lei e ordem não podem se contrapor a direitos humanos. Essa equação ainda não foi satisfatoriamente feita. É preciso construir uma ponte entre essas duas áreas”, diz Adorno.

De acordo com o coordenador, no mundo inteiro, a tendência é desenvolver políticas preventivas em vez de repressão, ou seja, de proteção, sobretudo de crianças e adolescentes para evitar que uma parte delas não derive para o mundo do crime e da violência. “Nos EUA, por exemplo, há estudos longitudinais de décadas e percebeu-se que a relação entre a mãe e seus filhos nos dois primeiros anos da vida é crucial para a trajetória dessas crianças. Sabemos hoje que há mães muito jovens, com partos em períodos muito curtos. Então é necessário haver políticas de acompanhamento, proteção, assistência, que deem a essas mães condições de cuidar de seus filhos”.

O evento será no Salão de Eventos do Centro de Tecnologia da Informação de Ribeirão Preto (CeTI-RP) da USP.

As inscrições são gratuitas e podem ser feitas aqui.

 

Por: Thais Cardoso, do IEA-RP

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