Laboratório da USP desenvolve dispositivo para paciente especial

Joyce, artista plástica ribeirãopretana, sofre de distonia generalizada congênita, que limita suas atividades ao uso dos dentes para pintar e usar a internet

A artista plástica Elizandra Joyce Bueno sofre com espasmos musculares por todo o corpo. Ela nasceu com uma doença neurológica congênita, a Distonia Generalizada Congênita, que inviabiliza qualquer movimento, já que sofre com contrações involuntárias dos músculos. Mas, para acessar à internet e usar os pincéis, Joyce, como a artista prefere ser chamada, conta com a ajuda de um dispositivo especial que a auxilia nos movimentos com a boca, sem prejudicar seus dentes e sua mordida.

Assistida por uma equipe multiprofissional da Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto (FORP) da USP, a artista conseguiu adaptação de uma placa miorrelaxante de acrílico (usada por pacientes com bruxismo e dores faciais), personalizada para suas necessidades. Esses profissionais – cirurgião-dentista, médico, fisioterapeuta, protético e engenheiro mecânico – são especialistas do Centro de Formação de Recursos Humanos Especializados no Atendimento Odontológico a Pacientes Especiais (CAOPE) da FORP.

Apesar dessa equipe insistir tratar-se apenas da adaptação de uma placa miorrelaxante, o dispositivo melhorou a qualidade de vida de Joyce. A placa foi moldada individualmente para que se adaptar aos dentes e a mordida da paciente, evitando “que seus dentes sofram apertamento”, conta a professora Andiara De Rossi, do Departamento de Clínica Infantil da FORP e integrante do CAOPE.

Providenciaram uma cavidade de encaixe na arcada dentária superior da placa com dispositivos de madeira que facilitam o encaixe dos pincéis e do lápis de digitação. Informa Andiara que essa alternativa é de baixo custo, fácil adaptação e confecção. “Além de cuidados com a saúde bucal, nossa equipe apresentou um olhar voltado para as demais necessidades dos pacientes portadores de deficiência que no Brasil encontram pouco suporte e apoio especializado”, afirma.     

“A Joyce começou a pintar aos 13 anos de idade e usava os dentes para segurar pincéis”, conta Ondina Bueno, mãe da artista. Com o tempo, começou a sentir dores e seus dentes amolecerem. Segundo a professora, a essa altura a artista tinha desenvolvido “Disfunção Temporomandibular (DTM), overjet acentuado (dentes incisivos inclinados e projetados para frente), diastemas (espaço extra entre os dentes), mobilidade e desgastes dos incisivos superiores (dentes superiores frontais)”.    

Para as dores na região da cabeça, pescoço e articulação temporomandibular, a equipe da FORP investiu em fisioterapia e acupuntura. E a cada seis meses, Joyce é submetida a aplicações de toxina botulínica que diminui as contrações musculares em outras partes do corpo, como braços e pernas.

“Hoje, ela tem acesso ao computador”, conta satisfeita dona Ondina. A inclusão digital da paciente, com acesso às redes sociais, é importante. E esse dispositivo garante acesso digital a pacientes portadores de tetraplegia ou deficiências que não permitem o uso dos dedos das mãos ou pés, através de adaptações feitas de acordo com a necessidade de cada um.

Pessoas com deficiências motoras, como Joyce, encontram outras alternativas, como os computadores por comando de voz, língua e movimentos dos olhos. Mas são de alto custo e muitas vezes não estão disponíveis no mercado brasileiro. Para Andiara, “essa é a vantagem da placa de acrílico com encaixe, além de promover alívio das dores, proporciona inclusão social e digital, devolvendo autonomia, independência e qualidade de vida”.   

Integram a equipe que assiste Joyce, os professores Aldevina Campos de Freitas, Fabrício Kitazono de Carvalho, Raquel Assed Bezerra da Silva e Kranya Diaz Serrado, Alexandra Mussolino de Queiroz e Andiara De Rossi; a cirurgiã dentista Carolina Paes Torres, o técnico José Carlos Ferreira Jr e as alunas Késsia Suênia Guimarães e Michela Camilo.    

CAOPE

O Centro de Formação de Recursos Humanos Especializados no Atendimento Odontológico a Pacientes Especiais, da FORP, atende de forma multidisciplinar pacientes especiais de todas as idades. Oferece serviços à comunidade, abrangendo procedimentos educativos e preventivos, como orientação de higiene bucal; dentística restauradora; periodontia; tratamento endodôntico; extrações dentais; aparelhos ortodônticos; procedimentos cirúrgicos especiais; entre outros.

Mais informações: andiara@usp.br

Por: Giovanna Grepi

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