Preconceito de gênero exige humanização

Discussão sobre mulher transexual no esporte vai além de possíveis vantagens em competições e evidencia preconceito de gênero – Foto: Luis Gomes – EEFERP

Especialistas presentes na Escola de Educação Física e Esporte de Ribeirão Preto (EEFERP) da USP concluíram que o debate sobre as atletas transexuais “ajuda a pensar num mundo mais inclusivo”

Polêmica na imprensa e redes sociais, caso da primeira atleta transexual autorizada a disputar o Campeonato Brasileiro de Voleibol Feminino é preconceito ou tem base científica? Para autoridades presentes à terceira Jornada USP de Psicologia do Esporte, é preconceito. A mulher foi o tema do evento, não por acaso, realizado no Dia Internacional da Mulher, 8 de março, em Ribeirão Preto.

Pode até faltar informação sobre a fisiologia humana ou a formação de um atleta à maioria da sociedade, mas o que vem primeiro é mesmo “a dificuldade em lidar com a diversidade”, afirma a professora Berenice Bilharinho Mendonça, titular do Setor de Endocrinologia da Faculdade de Medicina da USP de São Paulo, e consultora do Comitê Olímpico Internacional (COI) para a inclusão de atletas latino-americanos com distúrbios sexuais.

Há 40 anos trabalhando com distúrbios do desenvolvimento sexual (DDS),  a médica garante que a principal diferença entre homem e mulher na capacidade física para o esporte é o nível de testosterona, hormônio que define características masculinizantes como maior massa muscular e, consequentemente, mais força, potência e velocidade (assista aula online).

Respondendo aos críticos das mulheres transexuais em competições femininas, Berenice lembra das várias condições médicas que resultam em hiperandrogenia e produção excessiva de testosterona em mulheres. Se a questão é de vantagens de um corpo pregressamente esculpido pelo hormônio masculino, comenta a médica, deveriam também considerar os casos de hiperandrogenia em mulheres. “A síndrome do ovário policístico é um exemplo relativamente comum”.

Quanto às desvantagens para o esporte, a professora lembra os riscos de saúde e vida oferecidos pela terapia de transformação de gênero. E no universo esportivo nem se fala em cirurgia, já que se usadas as regras do COI elas não são mais necessárias, mas os oferecidos pelos tratamentos hormonais.

A psicóloga do esporte da equipe masculina de vôlei do Sesi, Marina Gusson, chega a se questionar quanto aos prejuízos físicos da transformação para a atleta, quando se diminui a força com a queda da testosterona no organismo. Marina conta que são tantas as variáveis envolvidas no desempenho de uma atleta que torna muito difícil usar apenas o fator hormonal para definir vantagens ou injustiças em competições esportivas, principalmente como as de vôlei que dependem da inteligência.

Berenice Bilharinho de Mendonça – Foto arquivo pessoal

Em 2003, quando uma comissão médica se reuniu em Estocolmo, Suécia, definindo o Consenso sobre Reatribuição de Sexo e Hiperandrogenismo, o COI autorizou a participação de atletas transexuais nas Olimpíadas, mas com muitas restrições. Na mudança de sexo biológico de masculino para o feminino, era necessária a cirurgia de reconstrução genital.

Com a revisão dessas regras em 2015, as atletas que querem competir em eventos femininos devem apresentar níveis de testosterona no sangue abaixo de 10 nmol/L durante os últimos 12 meses antes de sua primeira competição olímpica. Aquelas que passaram por mudança de sexo não precisam mais das cirurgias, mais devem ter declarado a identidade de gênero feminina, além de manter o nível hormonal. Não existem restrições para casos de mudança de feminino para masculino.

‘Um olhar mais aberto’ para a inclusão

Atleta transexual não foi o único tema da Jornada da USP destacado pelo preconceito. O mundo esportivo foi por séculos tido como “coisa de homem” e apresenta ainda muito desafio às mulheres. Mas a situação persiste em diversos setores, não só os esportivos. Mesmo com os avanços alcançados, elas ainda são discriminadas, recebem salários menores e, como mostra pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgada no início do mês de março, perderam cargos de lideranças. De 39% em 2015, ocuparam apenas 37,8% das chefias empresariais em 2016, mesmo tendo mais escolaridade que os homens.

Tomando como base as falas das psicólogas, médicas, atletas e professores e alunos de educação física presentes ao evento, a desigualdade de gêneros na sociedade brasileira ainda é grande e deve ser combatida com “estratégias de humanização”. Para Marina Gusson, a discussão sobre as mulheres transexuais nos esportes faz pensar no quanto se deve “ampliar o leque sobre os vários parâmetros a ser analisados para tirar conclusões”.

Berenice vê no sofrimento dessas mulheres com o preconceito social uma oportunidade que “ajuda a pensar num mundo mais inclusivo”. E a também psicóloga Gabriela de Oliveira Zin acredita em mudança de ideia e aconselha a “manter um olhar mais aberto”.

Assista ao evento completo online.

Por: Rita Stella

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