Comportamento hormonal define melhor treino físico

Pesquisadores identificaram um comportamento específico do hormônio Fator de Crescimento Insulina-1 durante treinos físicos – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Considerado a melhor pesquisa em endocrinologia pediátrica do exercício, estudo identifica oscilação hormonal em treinamento de atletas

Já se conhecia a relação entre as concentrações desse hormônio, o Fator de Crescimento Insulina-1 ou Insulin Growth Factor-1 (IGF-I), no organismo e o ganho de massa e força muscular e aptidão física de um indivíduo. Mas agora, pesquisadores da USP em Ribeirão Preto identificaram comportamento específico desse hormônio durante treinos físicos. O achado deverá servir de marcador biológico da condição física e orientar treinadores na preparação de atletas para competições esportivas.

Este é o primeiro estudo a demonstrar redução significativa dos níveis do IGF-I na corrente sanguínea durante a fase intensiva dos treinos, seguida por aumento igualmente importante desses níveis quando o atleta reduz intensidade dos exercícios.

Conta o professor Hugo Tourinho Filho, da Escola de Educação Física e Esporte de Ribeirão Preto (EEFERP) da USP, que a eficácia do treinamento físico depende da intensidade, volume, duração e freqüência do treino somados à capacidade individual do atleta em tolerar o trabalho físico. “Um desequilíbrio entre a carga utilizada e a tolerância do indivíduo leva ao subtreinamento ou ao overtraining”, situações prejudiciais à performance do atleta.

Sabendo que o IGF-1 é sensível aos efeitos do treinamento e pode mostrar o estado físico do indivíduo, o pesquisador acredita que o hormônio ajude a planejar treinos personalizados, balanceando as sessões nas diferentes fases da temporada, para obter melhor desempenho. O professor diz que se o atleta está numa fase intensa de treino “é natural que este hormônio se encontre reduzido no organismo. No entanto, quando a fase do treinamento está menos intensa este hormônio deve voltar aos seus valores basais. Caso isto não ocorra, pode ser sinal, por exemplo, de overtraining”.

“Técnica” mede ação de treino sobre organismo

Ao lado do colega Carlos Eduardo Martinelli Júnior – professor do Departamento de Puericultura e Pediatria da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP e especialista em endocrinologia pediátrica, a equipe de Tourinho acompanhou nove nadadores adolescentes em diferentes etapas de uma temporada de treinamento. Eram todos do sexo masculino com idades entre 16 e 19 anos. O objetivo era verificar se as concentrações sanguíneas de IGF-I e as proteínas a ele relacionadas (IGFBP-3 e ALS) poderiam servir como um marcador de adequação de treinamento. Compararam então os níveis hormonais com desempenho físico e composição corporal dos atletas.

Os resultados comprovaram que estes hormônios servem para sinalizar o modo como o treino atua sobre o organismo. E essa “técnica” serve para medir a ação do treinamento em qualquer esporte e atleta. Mas, no caso dos adolescentes, o procedimento torna-se “muito importante”, garante o professor Tourinho. O IGF-I está ligado diretamente com o estirão de crescimento e “a supressão de sua produção poderia afetar o crescimento do atleta adolescente”.

Os resultados comprovaram que esses hormônios servem para sinalizar o modo como o treino atua sobre o organismo – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

O professor lembra que o fato do possível prejuízo sobre o crescimento do adolescente ainda não foi confirmado. O IGF-I é produzido, principalmente, pelo fígado por estímulo do hormônio do crescimento (GH, do inglês growth hormone). Esse eixo, que vai do GH (produzido pela hipófise) até a produção do IGF-I, “é composto de hormônios, fatores de crescimento, proteínas de ligação (BPs) e receptores que regulam muitos processos vitais essenciais, incluindo crescimento e desenvolvimento, processos metabólicos e reparadores e envelhecimento”, conta Tourinho.

Esses fundamentos justificam a preocupação dos pesquisadores em compreender o funcionamento do eixo GH/IGF-I, que, segundo o professor da USP, deve ser considerado individualmente de forma fisiológica e patológica (funcionamento normal e em doenças).

O estudo da USP acabou de confirmar a relação do eixo com os programas de exercícios físicos; mas já é conhecida a ação dos níveis sanguíneos de GH e IGF-I sobre massa muscular e aptidão física em crianças, adolescentes e adultos. E, também, que a puberdade é profundamente marcada pela ativação do eixo GH/IGF-I que, por sua vez, interage com os esteróides gonadais e o pico de crescimento.

Reconhecendo o estudo e seus achados, o artigo “Serum IGF-I, IGFBP-3 and ALS concentrations and physical performance in young swimmers during a training season”, publicado na Growth Hormone & IGF Research em fevereiro de 2017, foi eleito como a mais importante publicação do ano passado na área de Endocrinologia e Pediatria do Exercício pela revista Pediatric Exercise Science. O trabalho do grupo da USP de Ribeirão Preto foi destaque da seção The Year that was 2017, publicado na primeira edição de 2018 da Pediatric Exercise Science.

As pesquisas do grupo da USP de Ribeirão Preto continuam, com avaliações de atletas de diferentes esportes. Monitoraram equipes de jiu-jitsu, futebol, futebol americano e vôlei, além da natação, e hoje estudam uma equipe de crossfit.

Mais informações: tourinho@usp.br

Por: Rita Stella

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