Derivado da mamona auxilia na higiene bucal

Produto beneficia, principalmente, população idosa e carente, usuária de dentaduras. Na foto as professoras Valéria Pagnano de Souza, Helena de Freitas Oliveira Paranhos e Claudia Helena Lovato da Silva.

Cientistas da Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto (FORP) da USP comprovam em testes clínicos e laboratoriais que um subproduto (éster ricinoleico) da mamona (Ricinus communis) é eficaz no combate aos micro-organismos presentes na boca e não apresenta efeitos. Os resultados mostram que solução contendo essa substância pode ser alternativa ao peróxido alcalino – as pastilhas efervescentes – usado na limpeza de prótese dentária total (dentaduras). Essas pastilhas têm alto custo e estão pouco disponíveis no mercado brasileiro.

Estudando higienização bucal desde a década de 1990, a professora Helena de Freitas Oliveira Paranhos conta que a equipe da FORP avalia efeitos de diferentes produtos na remoção de resíduos e microrganismos presentes nas dentaduras. Avalia também os efeitos adversos aos materiais das próteses dentárias. A estomatite relacionada à prótese também é alvo dos estudos clínicos do grupo.

Mas, até o momento, a professora garante que os usuários de próteses dentárias só encontram como alternativa mais barata de higienização o hipoclorito de sódio, aquele cloro que se compra nos supermercados, usado como desinfetante e alvejante de roupas. Apesar de eficiente no combate aos micro-organismos, esse produto exige cuidados na diluição e manuseio. Pode causar efeitos adversos, como alergias, danos às resinas da dentadura e corrosão aos metais de próteses parciais. Além do forte odor e gosto ruim.

A responsável pelos primeiros testes com a mamona nos laboratórios da FORP foi a professora Claudia Helena Lovato da Silva, que estudou a concentração de mamona na solução e verificou o impacto de seu uso, tanto no material de confecção das próteses totais como em alguns aspectos da saúde humana. Atualmente, a professora Valéria Pagnano de Souza, outra integrante da equipe, ampliou os estudos para aplicação do subproduto da mamona nos metais, estruturas de próteses parciais removíveis (efeitos adversos e biofilme).

As pesquisadoras defendem o uso do produto à base mamona, principalmente, para usuários de próteses totais ou parciais que não queiram se sujeitar aos efeitos ruins do hipoclorito de sódio. “Não tem cheiro, não tem cor. A probabilidade de manchar a prótese é quase nula”. O argumento do acesso aos pacientes, para as pesquisadoras, também é válido. “Tem muita mamona em nosso país e o custo de industrializar como solução de limpeza para imersão de próteses seria baixo”.

Limpeza de prótese dentária é negligenciada

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Apesar dos resultados, os produtos à base mamona testados pelo Laboratório de Pesquisa em Reabilitação Oral da FORP ainda não estão sendo comercializados. As professoras acreditam que as características do público ao qual o produto se destina, em geral de população mais carente, possam afetar o interesse de empresários do setor. Na imagem, o produto sendo testado em laboratório.

É que, para a fabricação de dentifrícios, a forma em gel da mamona também mostrou-se eficaz no combate aos micro-organismos, mas é comparável a produtos mais tradicionais do mercado. Já o uso como limpador de dentaduras e próteses em solução apresenta vantagens aos produtos em comercialização. Além do baixo custo, não apresentou danos aos materiais utilizados na confecção das próteses e nem efeitos colaterais.

O usuário de dentadura, público estudado pela equipe da FORP, consiste em sua maioria de “população carente e, por isso, acho que a indústria não tem interesse; é de baixa renda”, comenta Helena Paranhos. “Em casa de idosos de país rico, tem gente treinada para fazer higiene bucal. Aqui no Brasil, não temos”.

A professora lembra ainda que muitos dos usuários de próteses são idosos e a solução de limpeza seria importante por causa da falta de destreza na escovação. Ela afirma que é importante que o paciente use a escova, mas depois a dentadura deve ser imersa numa solução para complementar a limpeza. E aí, a solução de mamona faria toda a diferença.

“Já está comprovado cientificamente que a escovação não limpa totalmente as próteses. Os micro-organismos entram na porosidade da resina, por isso é necessária a imersão após o uso da escova”, continua.

Como a população brasileira está vivendo cada vez mais, a professora Helena tem razão ao afirmar que a “odontogerontologia é uma área promissora”. E esse fato traz consigo sérios problemas de saúde. Só o serviço da FORP recebe a cada ano 250 pacientes só para tratamentos com dentaduras. “A maioria na terceira idade e com situação física precária”.

As professoras estão preocupadas com a higienização bucal dessa população, pois “não recebe orientação adequada”. Elas afirmam que os dentistas não estão indicando os cuidados com a prótese total a seus pacientes.

Outro alerta importante que fazem com relação ao futuro é o de que os implantes não irão substituir totalmente as próteses convencionais. “O implante não é indicado para todo caso clínico. A pessoa precisa de uma condição intrabucal favorável. E, em segundo lugar, o implante ainda é caro. Não está acessível a todos”. Apesar da educação ter melhorado e a prevenção com o flúor ajudar bastante, “infelizmente, acho que vamos continuar tendo muitos desdentados”.

Mais informações: e-mail: helenpar@forp.usp.br

Por: Rita Stella e Rosemeire Soares Talamone

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