Conservante de vacinas é tóxico aos rins

Timerosal, substância que contém mercúrio, é utilizado na produção de vacinas em frascos multidoses. Países pobres estão mais expostos. Na foto, Maria Fernanda, ao lado de um colega, no Laboratório da Universidade de Queensland.

Bactericida usado em vacinas, o timerosal é capaz de induzir à morte células renais humanas em apenas 24 horas enquanto as concentrações de mercúrio, presente na composição da substância, levam mais de 45 dias para ser reduzidas à metade no organismo. Esses são os principais achados de estudos realizados em laboratórios da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP) da USP e da Universidade de Queensland, Austrália.

Essa é a primeira vez que cientistas conseguem determinar a meia-vida do etilmercúrio – forma de mercúrio existente no timerosal – em tecidos animais que não o sangue. Banido dos produtos médicos brasileiros desde 2001, o mercúrio do timerosal (etilmercúrio) ainda é usado como agente antisséptico em frascos multidoses de vacinas.

Como o etilmercúrio é similar, em termos de estrutura química, ao metilmercúrio – forma orgânica do mercúrio encontrada principalmente na cadeia alimentar e altamente tóxica ao cérebro, os cientistas decidiram avaliar a ação do etilmercúrio em órgãos in vivo (modelo animal) e em células humanas. Conta a pesquisadora Maria Fernanda Hornos Carneiro, responsável pelo estudo, que em função da toxicidade neurológica do metilmercúrio, algumas pesquisas foram publicadas associando a exposição a timerosal e o autismo em crianças, o que gerou alarme e muito debate tanto na comunidade científica quanto na população em geral.

Mas, logo de início Maria Fernanda observou que o etilmercúrio não era tão parecido com o metilmercúrio. Após a administração do timerosal em camundongos, “o etilmercúrio converte-se rapidamente em mercúrio inorgânico”. O que não acontece com o metilmercúrio.

Outra diferença é que enquanto o metilmercúrio “acumula-se em grande quantidade no cérebro”, o mercúrio inorgânico é reconhecidamente tóxico aos rins, pois se concentra neste tecido. O que foi confirmado pela pesquisa já que, dentre os vários tecidos estudados, o rim foi o local do organismo animal que obteve a maior concentração de mercúrio e onde o metal foi retido por mais tempo.

Meia hora após injetado no organismo, a porcentagem de mercúrio nos rins já era maior que 70% do total no organismo. O rim foi também o órgão estudado em que o mercúrio demorou mais tempo para ser eliminado, cerca de 45 dias para se reduzir à metade o nível inicial. Nos demais tecidos – sangue, coração, cérebro e fígado, esse tempo (meia-vida) esteve entre 7 e 10 dias.

Com essas informações que indicavam maior exposição dos tecidos renais do animal, começou a segunda fase do estudo que analisou a ação tóxica e os mecanismos do timerosal em células de rins humanos (cultura de células de laboratório). E as suspeitas foram confirmadas. A substância ativou mecanismos de morte celular, como a apoptose, e as células renais acabaram morrendo.

A meia-vida mais longa do mercúrio nos rins constata o potencial nefrotóxico (tóxico aos rins) do timerosal. Mas, alerta a pesquisadora Maria Fernanda, não elimina a possibilidade deste composto causar danos ao cérebro ou outro tecido. Ela lembra que estudaram mais a fundo o potencial tóxico aos rins, pois foi o tecido onde encontraram a maior concentração de mercúrio e meia-vida mais longa.

Países pobres estão mais expostos à contaminação

Os laboratórios farmacêuticos utilizam o antisséptico timerosal em frascos multidoses de vacina para impedir o risco de contaminação durante abertura e manipulação. Num mesmo frasco, são inseridas diversas vezes agulhas para retirada da dose de vacina a ser aplicada, o que expõe o conteúdo ao crescimento de fungos e bactérias.

Em países desenvolvidos, como os Estados Unidos e os europeus, o timerosal não é necessário, já que grande parte das vacinas é produzida em frascos monodoses. Esse processo “é muito mais caro, tanto em termos de produção quanto de armazenamento”, afirma a pesquisadora.

Quanto às alternativas ao timerosal, Maria Fernanda é enfática: “todas as substâncias alternativas que existem atualmente são tão tóxicas quanto o timerosal; o ideal é ter mais dinheiro e produzir frascos monodoses”. Como isso ainda não é possível, principalmente em locais muito pobres do planeta, a pesquisadora diz acreditar no bom senso das autoridades sanitárias.

“Acredito que precisamos vacinar para aquelas doenças graves que matariam num tempo muito menor”. Ela confia que a imunização nesses locais seja realizada com o maior bom senso possível. Mas não acredita que a população esteja isenta de “eventos de toxicidade”.  A pesquisadora alerta para os indivíduos mais expostos, como os doentes renais, os recém-nascidos, gestantes e idosos, que têm um maior comprometimento potencial do tecido renal ou outro tecido ainda em formação “porque o mercúrio é tóxico”.

Ela lembra que tudo depende da quantidade de vacinas. No Brasil, considerando-se que todas as vacinas que um bebê recebe dentro do primeiro semestre de vida tenham mercúrio (o que não ocorre em 100% dos casos), a exposição deste indivíduo poderia chegar a aproximadamente 320 microgramas de mercúrio. “Isso é bastante? É pouco? Acho que mais estudos precisam ser feitos. Mas… bom não é!”.

O ideal, afirma a pesquisadora, é que tenhamos o menor contato possível com mercúrio. A resposta nesse sentido seria “buscar o preparo de vacinas em dose única”. Caso essa saída não seja possível economicamente, ela defende que em países como o Brasil populações de risco sejam poupadas com vacinação em frascos de dose única.

Prêmio Tese Destaque USP 2016

Os resultados do trabalho de Maria Fernanda são parte de seu doutorado que recebeu este ano menção honrosa na categoria Ciências da Saúde do Prêmio Tese Destaque USPAvaliação da distribuição, metabolismo e nefrotoxicidade do timerosal – um conservante à base de mercúrio usado em vacinas – utilizando modelos in vivo e in vitro foi orientado pelo professor Fernando Barbosa Jr. na FCFRP.

A pesquisa também foi publicada em 2014 na edição de outubro da revista Environmental Research e em 2015, na edição de dezembro da revista Environmental Toxicology.

Mais informações: mafehoca@fcfrp.usp.br

Por: Rita Stella

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